O homem acusado de matar a advogada Karize Ana Fagundes Lemos foi condenado a 31 anos e 10 meses de prisão após um julgamento que durou quase 15 horas, realizado nesta quinta-feira (10), no Tribunal do Júri da Comarca de Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina.
A condenação ocorreu com base na denúncia apresentada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). O réu foi condenado por homicídio com quatro qualificadoras — feminicídio, motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima — além do crime de ocultação de cadáver.
Karize foi morta dentro da própria residência, em Caçador, no dia 28 de setembro de 2024. Na época, ela se recuperava de uma cirurgia nos rins. Segundo as investigações, o companheiro a enforcou com uma corda de sisal e, posteriormente, transportou o corpo até uma área de mata em Palmas, no Paraná.

Durante o julgamento, os Promotores de Justiça Diego Bertoldi e Marco Antônio Vargas Sandi apresentaram aos jurados as provas reunidas durante a investigação e sustentaram as teses apresentadas na denúncia.
“Neste plenário há uma pessoa que não pode clamar por justiça, e essa pessoa se chama Karize, mas o Ministério Público de Santa Catarina está aqui para falar em nome dela. Não vamos permitir que a verdade seja enterrada junto com o corpo, pois isso representaria um segundo assassinato”, afirmou o Promotor de Justiça Diego Bertoldi.
Já o Promotor de Justiça Marco Antônio Vargas Sandi destacou o conjunto de provas reunido durante a investigação.
“As imagens da cena do crime feitas pela perícia técnica e todo o restante do conjunto probatório não deixam dúvidas quanto à autoria e à crueldade empregadas pelo réu. A sociedade clama por justiça, e é papel dos jurados fazê-la”, declarou.
A DINÂMICA DO CRIME
Conforme as investigações, o crime aconteceu depois que Karize manifestou o desejo de terminar o relacionamento. O réu teria agido motivado por ciúmes e aproveitado o fato de a vítima estar debilitada durante a recuperação da cirurgia.
A vítima foi enforcada com uma corda de sisal retirada de um arranhador de gatos. Depois, o corpo foi enrolado em um cobertor e colocado dentro do carro.
Na sequência, o homem teria seguido até um posto de combustível, abastecido o veículo e deixado o local sem pagar. Depois, dirigiu por aproximadamente 150 quilômetros até Palmas, no Paraná, onde descartou o corpo em uma plantação de pinus.
Segundo o Ministério Público, após abandonar o corpo, o homem telefonou para dois amigos e contou o que havia feito. Os dois procuraram a delegacia e relataram as informações às autoridades, dando início às buscas.
A prisão aconteceu dois dias após o crime, em um motel em Guaíra, no Paraná, próximo à fronteira com o Paraguai. De acordo com as investigações, o acusado não conseguiu deixar o país porque a fronteira estava fechada para obras.
O réu não revelou às autoridades onde havia deixado o corpo. A localização foi descoberta por meio de um trabalho de inteligência baseado em dados extraídos do telefone celular.
A identificação de Karize foi confirmada por meio da comparação da arcada dentária com um exame odontológico realizado recentemente. A perícia também apontou que o roupão usado pela vítima e o cobertor no qual o corpo foi encontrado eram os mesmos que apareciam em fotografias publicadas anteriormente nas redes sociais.
JULGAMENTO
O réu chegou ao Fórum da Comarca de Caçador em uma viatura da Polícia Penal e retornou ao sistema prisional após o encerramento do julgamento.

Durante o interrogatório, ele confessou o crime. A defesa foi realizada por dois advogados, com garantia do contraditório, da ampla defesa e dos demais direitos previstos na Constituição Federal.
O processo foi julgado como homicídio, com as qualificadoras reconhecidas pelo Tribunal do Júri. A aplicação do feminicídio no caso considera a legislação vigente à época dos fatos e as regras de direito penal no tempo.
Durante a sessão, sete testemunhas foram ouvidas, entre elas um amigo e uma vizinha de Karize, dois policiais civis, a frentista do posto de combustível onde o acusado esteve e os dois amigos que receberam a ligação após o crime.
A vizinha Vitória de Oliveira contou que costumava levar sopa para Karize durante a recuperação da cirurgia e relembrou os momentos de angústia vividos desde o desaparecimento até a confirmação da morte.
“A gente se dava muito bem, ela era uma pessoa excelente e confesso que até hoje não caiu a ficha. Não dá para acreditar que fizeram uma crueldade dessas com ela”, relatou, emocionada.
SONHOS INTERROMPIDOS
Meses antes de ser morta, Karize havia comprado um carro e aberto o próprio escritório de advocacia. A jovem profissional também era conhecida pelo carinho com os animais.
A condenação trouxe um pouco de alívio ao pai da vítima, Rudnei, que enfrentou um período de grande sofrimento após a morte da filha e precisou passar por um cateterismo.
“A gente sofre muito. Foram 40 dias de muita angústia, e quando o corpo finalmente foi encontrado nem consegui fazer um velório decente, pois ele já estava em decomposição. A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração”, desabafou.
TRÊS GATOS TAMBÉM FORAM MORTOS
Karize era apaixonada por animais, costumava resgatar gatos das ruas e encaminhá-los para tratamento. Na época, ela tinha cinco gatos em casa.
As investigações apontaram que três dos animais também foram mortos pelo réu naquele mesmo dia, possivelmente utilizando a mesma corda. Outros dois conseguiram deixar o local antes de serem atacados.
CASO APARECE NO MAPA DO FEMINICÍDIO
O caso de Karize também está relacionado a dados apresentados pelo Mapa do Feminicídio do Ministério Público de Santa Catarina.
Segundo o levantamento citado pelo MPSC, 63,9% das vítimas de feminicídio são mortas por parceiros ou ex-parceiros. O desejo de terminar o relacionamento também aparece como um fator presente em 45,8% dos casos analisados.
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: DENUNCIE
Casos de violência contra a mulher podem ser interrompidos quando os sinais de agressão são reconhecidos e denunciados.
A violência doméstica não deve ser tratada como um problema privado. Qualquer pessoa que presencie, saiba ou suspeite de uma situação de violência pode procurar ajuda e denunciar.
Canais de denúncia:
- Ouvidoria do MPSC: 127;
- Polícia Militar: 190;
- Polícia Civil: 181;
- Central de Atendimento à Mulher: 180;
- NEAVIT – Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas: atendimento e orientações por meio dos canais oficiais do MPSC.






